Não sei se o reflexo neste espelho sou eu, tudo é
tão diferente agora, estou tão diferente agora... Ele me fez assim.
E meu cabelo? O que houve com meu cabelo? Está tão
sujo, tão feio, maltratado. Minha pele, tão pálida e seca.
Essa voz?! O que é essa voz? Por que grita comigo?
Cale a boca! Quem é você? O que eu te fiz? Deixe-me em paz!
Eu era tão linda, um ícone de beleza, todos me
desejavam, me queriam, jogavam-se aos meus pés, me veneravam, me bajulavam, me
adulavam. Eu era ovacionada, aplaudida, onde quer que fosse.
Eu era maravilhosa, corajosa. Achava-me no direito
de ser impiedosa, impetuosa, egoísta, egocêntrica, arrogante e petulante.
O que vejo agora no espelho é apenas mais uma
simples mulher, qualquer coisa assim, uma pessoa frustrada, uma executiva
fracassada, uma pessoa amargurada, enfim, humilhada.
Meu orgulho, meu egoísmo, minha ira e meu ódio me
destruíram. Sim, eles me destruíram. Hoje, sou apenas alguém que sofre e que
chora. Alguém que grita, mas ninguém ouve. Sou resto, sou um objeto, um dejeto
e simplesmente nada mais.
Meu peito está oco, a bem da verdade, meu corpo
está oco. Ouço o eco da minha dor, do meu sofrimento e solidão. Coisas que eu
acreditava, mostraram-se ser apenas o início do problema, e a cada instante,
segundo e hora que passa, esse vazio me consome e me corrói por dentro.
Minhas fraquezas foram reveladas, meu rosto está à
mercê de quem queria cortá-lo, minha pele morta está sensível a qualquer forma
de carinho ou demonstração de afeto. Tudo que temo agora é que aqueles a quem
feri, me perdoem, eu imploro.
Não há humilhação maior do que o perdão daqueles
que esperamos que nos agridam e nos machuquem, assim como eu mesma já fiz.
Para o meu desespero e agonia, ainda existem
pessoas dispostas a perdoar, a oferecer a outra face. Só a mera menção dessa
possibilidade já me enoja, desprezo todos que venham a pensar na opção do
perdão.
Não pedi nada a vocês, pobres desgraçados! Não
destruam meu mundo, ou o pouco que dele restou, me deixem em paz com minha
soberba, me deixem alimentar minha ira e meu doce egoísmo. Se quiserem provar o
sabor açucarado do meu veneno destilado em mágoas, não precisa muito, é só
virem até mim, pobres desgraçados, meros mortais, mortos de fome.
Ainda possuo um resquício de beleza que abastece
minha soberba, não tenho vergonha da minha supremacia, afinal, é nela que minha
soberania se apoia. Humildade me causa asco, fiquem vocês, miseráveis, com suas
ambições por um mundo de igualdade. Podem ficar aí mesmo, parem de avançar
salivando no meu sucesso, no meu sucesso, no meu império.
De mim vocês não terão nem o sentimento de pena, muito
menos de compaixão, não me implore misericórdia. O que é isso? Limpem seus
ouvidos imundos, sujos de palavras ternas e ouçam bem: Para mim, todos vocês
são simplesmente nada!
Autor: Cláudio Nanti
18/11/2005